nome em homenagem ao conto Desenredo de Guimarães Rosa e
os tempos se seguem e parafraseiam ...

trajeto non aedificandi

SESC Pompéia, São Paulo, SP
“Aquele rio está na memória como um cão vivo dentro de uma sala. Como um cão vivo dentro de um bolso. Como um cão vivo debaixo dos lençóis, debaixo da camisa, da pele.” (1)

As águas de março, invadiam o SESC e a mim, desaguando em um estudo mais aprofundado deste conjunto arquitetônico projetado Lina bo Bardi. Em suas palavras, paredes, aquarelas e texturas, a arquiteta sinalizava o desejo de espelhar a cidade, mesmo sob o aspecto do crescimento da urbe as margens do rio, e ele delimitando a implantação do novos edifícios. O rio que nos dias de chuva gritava sua existência nas secreções do corte feito pelo dito desenvolvimento urbano - o Córrego da Água Preta.
No Levantamento Planialtimétrico Sara Brasil de 1932, o Córrego sorria em azul. Delimitei, para fora dos muros, na escala urbana, o início do percurso em que a água preta me atravessaria, resultando na tristeza branca marcada pelo cal que desapareceria com o ar antes mesmo de sua queda e pela ação do homem. Silenciosa, acompanhada pelo rio que chorava em sua solidão de bueiro, tropeçando na materialização do desenvolvimento, cheguei novamente ao SESC. No deck, a palavra branca (o poema "Cão sem plumas" de João Cabral de Melo Neto), substituiu o não edificável cal para a permanência discursiva do grito calado. Abandonei o rio para caminhar em meu presente em que o não dizer, o silenciar, o acobertar, protege a existência deste passado enterrado em vida.
Hoje, apresentar o registro deste trabalho por meio das fotografias de Daniella Origuela, não pretende representar ou simbolizar a intervenção, pois as relações criadas, respostas instantâneas e emoções, pertencem a um intervalo e experiência íntima ou, talvez, aos transeuntes daqueles dias, que eram provocados pela estranheza. Encaro este momento como uma nova intervenção, que pretende aguçar sensações para descobertas individuais, outros passos para antigos ou novos tempos e principalmente para o presente: mais de 60% do corpo humano é constituído de água.
Em silêncio, o rio carrega sua fecundidade pobre, grávido de terra negra. (1)
(1) João Cabral de Melo Neto - "O Cão sem Plumas" -In Poesias Completas (1940-1965) -José Olympio, 3a. ed., 1979.

expo

(im.daniella origuela)