nome em homenagem ao conto Desenredo de Guimarães Rosa e
os tempos se seguem e parafraseiam ...

mapas mentais


baseada na metodologia criada por Lynch para Boston, apliquei a realização de mapas mentais com a "população flutuante", traseuntes e trabalhadores da região da Berrine.

"O homem primitivo via-se forçado a melhorar a imagem de seu meio ambiente adaptando sua percepção a uma paisagem dada. Ela podia efetuar pequenas mudanças em seu meio ambiente através de túmulos, sinais de fogo; mas as modificações visuais significativas se limitavam a disposição das casas e dos recintos sagrados. Só as civilizações poderosas podem começar a agir sobre o conjunto do meio ambiente em uma escala significativa. O remodelamento consciente de um meio físico de grandes dimensões só se tornou possível recentemente; é por esse motivo que o problema da imagibilidade do meio ambiente é novo.
... de qualquer cidade existe uma imagem pública, resultante de numerosas imagens individuais. Cada imagem individual é única, com um conteúdo que raramente, ou nunca, é comunicado; entretanto, perfila a imagem pública que, segundo o caso, é mais, ou menos, limitadora, mais ou menos compreensiva."

The Image of the City, Cambrigde, The tecnology Press & Harvard University Press, Massachusetts, 1960.

onde estão as árvores da pompéia.



Milene e Diogo Rios me convidaram para a pescaria no corrego da água preta (ver postagem do trajeto non aedificandi), na oficina realizada para exposição "onde estão as árvores da pompéia. SESC SP.

estampa. o amor comeu



Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto


Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.


As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
São Paulo me CON_VEM, mas nego chegar, nego meus lugares, sofro intimações e desço a Augusta ... tropeço na vontade de um livro "Viva eu, viva tu, viva o Rabo do Tatu" ... grito infantil para simbolizar a coragem de amigos. Repito baixinho, agora com o livro nas mãos.
Quando adultos esquecemos os hinos e ficamos com os mantras.

Poemalátero



escreva no interior da caixa, monte e entregue a quem desejar sem desejo.

E dos desejos: quero camélias libertadoras na minha lapela. Talvez saia hoje e liberte uma camélia poesia en_cuba_da.

à Hakim Bey: Terrorismo Poético e outros Crimes Exemplares

ESTRANHAS DANÇAS NOS SAGUÕES de Bancos 24 Horas. Shows pirotécnicos não autorizados. Arte terrestre, trabalhos- telúricos como bizarros artefatos alienígenas espalhados em Parques Nacionais.
Arrombe casas mas, ao invés de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas. Rapte alguém e faça-o feliz.
Escolha alguém aleatoriamente e convença-o de que ele é herdeiro de uma enorme, fantástica e inútil fortuna: digamos 8000 quilômetros quadrados da Antártida, ou um
velho elefante de circo, ou um orfanato em Bombaí, ou uma coleção de manuscritos alquímicos. Mais tarde, ele irá dar-se conta de que acreditou por alguns poucos
momentos em algo extraordinário, & talvez, como resultado, seja levado a buscar uma forma mais intensa de viver.

Pregue placas comemorativas de latão em locais (públicos ou privados) onde experimentaste uma revelação ou tiveste uma experiência sexual particularmente especial, etc.

Ande nu por aí.

Organize uma greve em sua escola ou local de trabalho, com a justificativa de que não estão sendo satisfeitas suas necessidades de indolência & beleza espiritual.

A Arte do grafitti emprestou alguma graça à metrôs horrendos & rígidos monumentos públicos. A arte Poético-Terrorista também pode ser criada para locais públicos: poemas rabiscados em banheiros de tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte xerocada distribuída sob limpadores de pára-brisa de carros estacionados, Slogans em Letras Grandes grudados em muros de playgrounds,
cartas anônimas enviadas a destinatários aleatórios ou escolhidos (fraude postal), transmissões piratas de rádio, cimento fresco...

A reação da audiência ou o choque estético produzido pelo Terrorismo Poético deve ser pelo menos tão forte quanto a emoção do terror: nojo poderoso, excitação sexual, admiração supersticiosa, inspiração intuitiva repentina, angústia dadaísta — não importa se o Terrorismo Poético é direcionado a uma ou a várias pessoas, não importa se é "assinado" ou anônimo; se ele não muda a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.

O Terrorismo Poético é um ato em um Teatro de Crueldade que não tem palco, nem assentos, ingressos ou paredes. Para funcionar, o TP deve ser categoricamente divorciado de todas as estruturas convencionais de consumo de arte (galerias,
publicações, mídia). Mesmo as táticas guerrilheiras Situacionistas de teatro de rua já estão muito bem conhecidas e esperadas, atualmente.

Uma requintada sedução levada adiante não apenas pela satisfação mútua, mas também como um ato consciente por uma vida deliberademente mais bela: este pode ser
o Terrorismo Poético definitivo. O Terrorista Poético comporta-se como um aproveitador barato cuja meta não é dinheiro, mas MUDANÇA.

Não faça TP para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que acabaste de fazer é arte. Evite categorias artísticas reconhecidas, evite a política, não fique por perto para discutir, não seja sentimental; seja impiedoso, corra riscos, vandalize apenas o que precisa ser desfigurado, faça algo que as crianças lembrarão pelo resto da vida — mas só seja espontâneo quando a Musa do TP tenha te possuído.

Fantasia-te. Deixa um nome falso. Seja lendário. O melhor TP é contra a lei, masnão seja pego. Arte como crime; crime como arte.

La Traviata

Belo Horizonte, MG
atuação: aderecista

A Fundação Clóvis Salgado abre a Temporada de Óperas 2010 com a primeira ópera apresentada no Grande Teatro do Palácio das Artes: La Traviata, de Giuseppe Verdi.

Para dar vida à história de Violetta Valery e Alfredo Germont, entram em cena a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e solistas convidados.

A montagem tem direção musical e regência de Roberto Tibiriçá, maestro titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. A concepção e direção de cena estão a cargo do italiano Mario Corradi e os cenários e figurinos são assinados por Raul Belém Machado. A coreografia é de Rodrigo Giése, o design de iluminação, de Telma Fernandes e a caracterização e maquiagem de Regina Mahia.

(fotos.paulo lacerda)

novos e velhos paulistas



confecção de estandartes para o Excelentissimo Botequim
com personagens da cultura paulista

Rua Ramos Batista, 491 - Vila Olimpia.

(em breve colocarei fotos)

pertencer


(para bebe_r morar das dores . toyart para "das dores")

"Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça" Clarice Lispector

trajeto non aedificandi

SESC Pompéia, São Paulo, SP
“Aquele rio está na memória como um cão vivo dentro de uma sala. Como um cão vivo dentro de um bolso. Como um cão vivo debaixo dos lençóis, debaixo da camisa, da pele.” (1)

As águas de março, invadiam o SESC e a mim, desaguando em um estudo mais aprofundado deste conjunto arquitetônico projetado Lina bo Bardi. Em suas palavras, paredes, aquarelas e texturas, a arquiteta sinalizava o desejo de espelhar a cidade, mesmo sob o aspecto do crescimento da urbe as margens do rio, e ele delimitando a implantação do novos edifícios. O rio que nos dias de chuva gritava sua existência nas secreções do corte feito pelo dito desenvolvimento urbano - o Córrego da Água Preta.
No Levantamento Planialtimétrico Sara Brasil de 1932, o Córrego sorria em azul. Delimitei, para fora dos muros, na escala urbana, o início do percurso em que a água preta me atravessaria, resultando na tristeza branca marcada pelo cal que desapareceria com o ar antes mesmo de sua queda e pela ação do homem. Silenciosa, acompanhada pelo rio que chorava em sua solidão de bueiro, tropeçando na materialização do desenvolvimento, cheguei novamente ao SESC. No deck, a palavra branca (o poema "Cão sem plumas" de João Cabral de Melo Neto), substituiu o não edificável cal para a permanência discursiva do grito calado. Abandonei o rio para caminhar em meu presente em que o não dizer, o silenciar, o acobertar, protege a existência deste passado enterrado em vida.
Hoje, apresentar o registro deste trabalho por meio das fotografias de Daniella Origuela, não pretende representar ou simbolizar a intervenção, pois as relações criadas, respostas instantâneas e emoções, pertencem a um intervalo e experiência íntima ou, talvez, aos transeuntes daqueles dias, que eram provocados pela estranheza. Encaro este momento como uma nova intervenção, que pretende aguçar sensações para descobertas individuais, outros passos para antigos ou novos tempos e principalmente para o presente: mais de 60% do corpo humano é constituído de água.
Em silêncio, o rio carrega sua fecundidade pobre, grávido de terra negra. (1)
(1) João Cabral de Melo Neto - "O Cão sem Plumas" -In Poesias Completas (1940-1965) -José Olympio, 3a. ed., 1979.

expo

(im.daniella origuela)

Palacete 10 de Julho




Pindamonhangaba
Companhia de Projeto [Rosângela Martinelli Biasoli, Mita Ito e Rogério Campos Magalhães]

atuação: Arquiteta Colaboradora


A antiga sede da prefeitura de Pinda se tonará um espaço onde será contada a história da cidade e do Vale do Paraíba. O Palacete 10 de julho, tombado como monumento histórico, reunirá o acervo documental e iconográfico da cidade e da região. O prédio constitui um exemplar da arquitetura residencial da nobreza cafeeira do Vale do Paraíba. Já foi residência dos barões do café no século XIX e sede dos poderes Legislativo até 1984 e Executivo até 2007. O projeto de restauro foi aprovado pelo Condephaat sob nº. 46.319/2003 e permite a construção de um centro cultural e histórico no prédio erguido em meados do século XIX para ser residência do barão de Itapeva, grande nome da elite cafeeira do Brasil.

artigo Vitruvius:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/07.082/2837

oficina: porta bandeira de mim


(im. oficina realizada em Feira de Escambo, organizado por Mayan Maharishi A oficina também já foi realizada na UNIBH para o curso de Ecologia)

Oficina “porta bandeira de mim” (1):
“Antigamente a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar forma a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas. Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão”
Ítalo Calvino. As seis propostas para o novo milênio. 1990

Oficina de criação de estampas e texturas na construção da identidade da nossa segunda pele (o vestuário) a partir do manifesto de HundertWasser (2) no qual a criação e consumo em série são questionados, na medida em que eles omitem o homem de afirmar a sua singularidade em sua vestimenta, apontando uma renúncia ao individualismo, um anonimato, onde todos são afetados por 3 males: a uniformidade, a simetria e a tirania da moda. Em contraposição propomos a criação suas próprias roupas, afirmando-as como seu passaporte social, aproveitando-as em sua riqueza de formas e cores e acima de tudo, afirmando o direito à diversidade.

(1) Trecho da música Infinito Particular, Composição: Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown, 2007.
(2) Pintor e arquiteto naturista (Austria-1928) traz uma nova concepção de corpo e de humano,nascidas e refletidas por seus projetos, casas, cores e pincéis. Um corpo ampliado, plural, assimétrico e desnivelado, construído sobre um equilíbrio tenso e dinâmico com tudo aquilo que o compõem e o cerca.

para guardar pequenas coisas



mania de fuxicar editoras atras de promoções e lançamentos de livros, Cosac Naif é endereço certo ... Oh Vida! Momento de escutar sininhos igual ao primeiro beijo (na pessoa certa em filmes americanos), meu pézinho 39 até se levantou:

O Livro de Nina para guardar pequenas coisas de Keith Haring.



Além de incentivar a criatividade e o imaginário, O livro da Nina para guardar pequenas coisas nasceu a partir de uma história de afeto entre o artista plástico norte-americano Keith Haring (1958-90) e Nina, filha do pintor italiano Francesco Clemente. Em seu aniversário de sete anos, a menina recebeu de Haring um livro inteiramente personalizado. Na mesma linha de Rabiscos (2009), de Taro Gomi, O livro da Nina é um objeto pessoal para desenhar, pintar, colar adesivos, folhas, fotos dos amigos, lembranças de um dia no circo e até pensamentos – desde que sejam pequenas coisas. Publicado agora em fac-símile, a edição brasileira conta, ainda, com um depoimento exclusivo da própria Nina Clemente, 22 anos após ter ganhado o presente.

As criações de Keith Haring marcaram as artes gráficas dos anos 1980. Seu traço se popularizou pelo mundo todo e é admirado até hoje por artistas da nova geração, como Osgemeos. Veio cinco vezes ao Brasil, uma delas para participar da Bienal de Arte de 1983.

investigações _ o figurino




im(giovana.fernanda.lorena)
misnistrado: Raul Belem - Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - BH - MG

Yufon e as Maizenas


admiração ... Christine Yufon e suas esculturas de vestir

"quando as pessoas não entendem minhas esculturas, não veem o que tento dizer, eu digo:você nunca se apaixou por ninguém!"
"minhas obras estão interminadas ... Para sempre"
"não existe mulher feia. A mulher émuito mais do que um conjunto harmônico.Tras dentro de si uma sensibilidade complexa que deve ser explorada.Mãe, amante, filha, ela abarca todas as forças do mundo."

e a preferida:
"eu visto isso aqui, dois pedaços de graveto e um barbante,e me chamam de maluca. O que há de doido nisso"

achei estas frases em um daqueles recortes de revista que a gente esconde no armário e Yofon gritou-me após me chamarem de maluca na rua por uma frase, enrolada em embalagem e pendurada como broche.

Conexão (movimento musical da Vivo, ou para quem ainda está vivo) acontecendo em BH; eu procurando comidinhas vegetarianas, implorando por elas e um mocinho me olhando. Encenação dramática: será que vive o mesmo problema que eu? procurei mancha de molho na roupa mas lembrei que ainda não tinha comido. Ele diz ao amigo: "ela é maluca" ..normalmente agradeço e acho que é um elogio mas desta vez me causou impacto, afinal, tinha fome e ter fome é ato inato, que rouba pensamento. Ele se aproximou e começou a ler meu broche em voz alta:

LIBERDADE AOS INDIOS DA MAIZENA!!!!

levantei os braços e disse: VIVA!

ele riu .. e assim saiu. Eu esqueci que queria comer (por pouco tempo) afinal, me alimentei de risadas.
intervalo! papel, estilete!

Moving Cube!



volume 2.

moving cube (no tape)

investigações_luz e cor



Luz e Cor - Telma Fernandes e Raul Belem - Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes - CTP - BH-MG ( Imagens. Josué)

re_sinto





Elogio aos errantes

Paola Berenstein Jacques

A arte de se perder na cidade

Tanto os métodos de análise contemporâneos das disciplinas urbanas quanto o que poderia ser visto como um dos seus resultados projetuais, a cidade-espetáculo 1, se distanciam cada vez mais da experiência urbana, da própria vivência ou prática da cidade. Errar poderia ser ser um instrumento dessa experiência urbana, uma ferramenta subjetiva e singular, ou seja, o contrário de um método ou de um diagnostico tradicional. A errância urbana seria uma apologia da experiência da cidade, um tipo de ação que poderia ser praticada por qualquer um.
Os praticantes das cidades atualizam os projetos urbanos, e o próprio urbanismo, através da pratica dos espaços urbanos. Os urbanistas indicam usos possíveis para o espaço projetado, mas são aqueles que o experimentam no cotidiano que os atualizam. São as diferentes ações, apropriações ou improvisações, dos espaços que legitimam ou não aquilo que foi projetado, ou seja, são passantes ou errantes que reinventam esses espaços no seu cotidiano.

Enquanto o urbanismo busca a orientação através de mapas e planos, a preocupação do errante estaria mais na desorientação, sobretudo em deixar seus condicionamentos urbanos, uma vez que toda a educação do urbanismo está voltada para a questão do se orientar, ou seja, o contrário mesmo do “se perder”.
Em seguida, pode-se notar a lentidão dos errantes, o tipo do movimento qualificado dos homens lentos, que negam, ou lhes é negado, o ritmo veloz imposto pela contemporaneidade. E por fim, a própria corporeidade destes e, sobretudo, a relação, ou a contaminação, entre seu corpo físico e o corpo da cidade que se dá através da ação de errar pela cidade. A contaminação corporal leva a uma incorporação, ou seja, uma ação imanente ligada à materialidade física, corporal, que contrasta com uma pretensa busca contemporânea do virtual, imaterial, incorporal.
As três propriedades mais recorrentes das errâncias – se perder, lentidão, corporeidade – estão intimamente relacionadas, e remetem a própria ação, ou seja, a prática ou experiência do espaço urbano. O errante urbano se relaciona com a cidade, a experimenta, e este ato de se relacionar com a cidade implica nesta corporeidade própria, advinda da relação entre seu próprio corpo físico e o corpo urbano que se dá no momento da desterritorialização lenta da errância. Para resumir pode-se dizer que o errante faz seu elogio à experiência principalmente através da desterritorialização do ato de se perder, da qualidade lenta de seu movimento e da determinação de sua corporeidade. As três propriedades poderiam ser consideradas como resistências ou criticas ao pensamento hegemônico contemporâneo do urbanismo que ainda busca uma certa orientação (principalmente através do excesso de informação), rapidez (ou aceleração) e, sobretudo, uma redução da experiência e presença física (através das novas tecnologias de comunicação e transporte).
Apesar da íntima relação entre essas propriedades da errância , talvez seja a relação corporal com a cidade, na experiência da incorporação, que mostre de forma mais clara e critica, o cotidiano contemporâneo cada vez mais desencarnado e espetacular. Diante da atual esperacularização das cidades que se tornam cada vez mais cenográficas, a experiência corporal das cidades, ou seja, sua prática ou experiência, poderia ser considerada como um antídoto a esta espetacularização. O que chamo de espetacularização das cidades contemporâneas 2 – que também pode ser chamado de cidade do espetáculo (no sentido debordiano) – está diretamente relacionado a uma diminuição da participação mas também da própria experiência urbana enquanto pratica cotidiana, estética ou artística.
A redução da ação urbana pelo espetáculo leva a uma perda da corporeidade, os espaços urbanos se tornam simples cenários, sem corpo, espaços desencarnados. Os espaços públicos contemporâneos, cada vez mais privatizados ou não apropriados, nos levam a repensar as relações entre o urbanismo e corpo urbano e corpo do cidadão, o que abre possibilidades tanto para uma critica da atual espetacularização urbana quanto para uma pesquisa de outros caminhos pelos errantes urbanos, que passariam a ser os maiores críticos do espetáculo urbano.
Ao se observar mais de perto a história critica do urbanismo, a historia marginal, é possível se perceber um outro caminho, que critica a espetacularização desde seus primórdios. Nesta pista, as principais questões são diversas formas de ação, e participação, na cidade mas também as relações corporais, através das experiências efetivas dos espaços urbanos. As relações sensoriais com a cidade que passam pelas experiências corporais destes espaços, sem suas diferentes temporalidades, seriam o oposto da imagem da cidade-logotipo. Os cenários ou espaços espetacularizados, desencarnados, seriam propícios somente para os simples espectadores.
Os praticantes da cidade, como os errantes urbanos, realmente experimentam os espaços quando os percorrem, e assim lhe dão corpo, e vida, pela simples ação de percorrê-los. Uma experiência corporal, sensorial, não pode ser reduzida a um simples espetáculo, a uma simples imagem logotipo. A cidade deixa de ser um simples cenário no momento em que ela é vivida e experimentada. Ela ganha corpo a partir do momento que é praticada, se torna “outro” corpo. Para o errante urbano sua relação com a cidade seria da ordem da incorporação. Seria precisamente desta relação entre o corpo do cidadão e deste outro corpo urbano que poderia surgir uma outra forma de apreensão da cidade, uma outra forma de ação, através da experiência da errância – desorientada, lenta e incorporada – a ser realizada pelo urbanista errante, que se inpiraria de outros errantes urbanos e, em particular, das experiências realizadas pelos escritores e artistas errantes.

Paola Berenstein Jacques é doutora em historia da arte pela Universidade de Paris 1 (Sorbonne)professora da Faculdade de Arquitetura e vice-coordenadora da Pós- Graduação em Urbanismo da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora CNPq, coordenadora do acordo CAPES/COFECUB Territorios Urbanos e Políticas Culturais, é autora de livros: Les favelas de Rio (Paris, I´Harmattan, 2001); Estetica da Giga (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2001); Esthetique dês favelas (Paris, I´Harmattan, 2003); coautora de Maré, vida na favela (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2002); organizadora de Apologia da Deriva (Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003), Corps ET Décors Urbains (Paris, I’Harmattan).

Este texto faz parte do caderno Reverberações 2006 – Seminário Ritmos da Urgência – curadoria Flavia Vivacqua.
Cena de Manderlay – 2005 - Direção e Roteiro: Lars von Trier /
Produção: Vibeke Windelov / Fotografia: Anthony Dod Mantle /
Direção de Arte: Peter Grant / Figurino: Manon Rasmussen


Claude Lévi- Strauss . Tristes trópicos. Portugal Editores, s.d., p.250 (1955)

“A distribuição circular das palhoças em torno da casa dos homens é de tal importância, no que diz respeito à vida social e à prática do culto, que os missionários salesianos da região do rio das Garças rapidamente descobriram que a maneira mais segura de converter os Bororo consistia em obrigá-los a abandonar suas aldeias, trocando-as por outra, onde as casas são dispostas em filas paralelas. Desorientados relativamente aos pontos cardeais, privados da planta que fornece um argumento para o seu saber, os indígenas perdem rapidamente o sentido das tradições, como se os seus sistemas social e religioso fossem muito complicados para passarem sem o esquema, tornado patente pela planta da aldeia e cujos contornos são perpetuamente refrescados pelos seus gestos cotidianos.”






o carteiro e o poeta

OUTRO(Pablo Neruda)

De tanto andar numa região

que não figurava nos livros

acostumei-me às terras tenaz e sem

que ninguém me perguntavase me agradavam as alfaces

ou se preferia a menta que devoram os elefantes.

E de tanto não responder

tenho o coração amarelo.

desenredo

Guimarães Rosa

Do narrador a seus ouvintes:

- Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

- Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jô Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro coberto de sete capas.

Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.

Não se via quando e como se viam. Jô Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.

Até que veio o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.

Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando.
Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.

Ela - longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.

Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.

Mas.

Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam. Deu-se a entrada dos demônios.

Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.

Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.

Mas.

No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se e remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar, a gente não se desafaz. Ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.

Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.

O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?

Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.

Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.

Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.

Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retornaram-se, e, conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.

E pôs-se a fábula em ata.